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Vidas Desperdiçadas
Extrato do livro Vidas Despediçadas, de Zygmunt Bauman, Ed. Zahar, 2004
Há mais de uma forma de contar a história da modernidade (ou qualquer espécie de história).
Falando sobre Aglaura, uma das cidades bizarras, mas estranhamente familiares, relacionadas em A Cidade Invisível, de Ítalo Calvino, Marco Pólo afirmou que com dificuldade poderia ir “além das coisas que seus habitantes sempre repetiram”, mesmo que suas histórias destoassem daquilo que ele próprio julgava estar vendo. “ Você gostaria de dizer o que ela é mas tudo que já se disse sobre Aglaura tem o efeito de aprisionar suas palavras e obrigá-lo a repetir, em vez de dizer.” E assim, abrigados em segurança pelas muralhas da cidade, feitas de histórias sempre repetidas, da mesma forma que os baluartes de algumas cidades são feitas de pedras, os aglaurianos “vivem numa Aglaura que cresce sobre o solo”. Como poderiam, na verdade, comporta-se de outro modo? Afinal, “ a cidade de que falam tem a maior parte daquilo de que se necessita para existir, enquanto a cidade que existe em seu lugar existe menos”.
Se lhes perguntassem, os habitantes de Leônia – outra das cidades invisíveis de Ítalo Calvino – diriam que sua paixão é “desfrutar coisas novas e diferentes”. De fato. A cada manhã eles “vestem roupas novas em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recém-lançados na estação de rádio mais quente do momento”. Mas a cada manhã “ as sobras da Leônia de ontem aguardam pelo “caminhão de lixo”, e um estranho Marco Pólo olhando, por assim dizer, pelas frestas das paredes da história de Leônia, ficaria imaginando se a verdadeira paixão dos leonianos não seria “ o prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente”. Caso contrário, por que os varredores de rua seriam “recebidos como anjos”, mesmo que sua missão fosse “cercada de um silêncio respeitoso” (o que é compreensível – “ninguém que voltar a pensar em coisas que foram rejeitadas)”? Como os leonianos se superam na busca por novidades, “uma fortaleza de dejetos indestrutíveis cerca a cidade”, “dominando-a de todos os lados, como uma cadeia de montanhas”.
Poderíamos perguntar: será que os leonianos enxergam essas montanhas? Às vezes sim, em particular quando uma rara golfada de vento leva a seus lares novos em folha um odor que lembra um monte de lixo, e não os produtos plenamente frescos, reluzentes e perfumados expostos nas lojas de novidades. Quando isso acontece, é difícil para eles desviar os olhos – teriam de olhar, cheio de preocupação, medo e tremor, para as montanhas, e se horrorizar com essa visão. Eles abominariam a feiúra delas e as detestariam por macularem a paisagem – por serem fétidas, insossas, ofensivas e revoltantes, por abrigarem perigos conhecidos e outros, diferentes de tudo que conheceram antes, por serem depósitos de obstáculos visíveis e de outros nem mesmo imagináveis. Não gostariam dessa visão e prefeririam não continuar olhando por muito tempo. Odiariam os dejetos de seus devaneios de ontem tão apaixonadamente quanto amaram as roupas da moda e os brinquedos de último tipo. Gostariam que as montanhas se desvanecessem, sumissem – dinamitadas, esmagadas, pulverizadas ou dissolvidas. Iriam queixar-se da preguiça dos varredores de rua, da doçura dos capatazes e da complacência dos chefes.
Mas ainda que os próprios dejetos, os leonianos odiariam a idéia de sua indestrutibilidade. Ficariam com a notícia de que as montanhas de que desejam tão avidamente se desvencilhar mostram-se relutantes em se degradar, deteriorar e decompor por si mesmas, assim como resistem e são também imunes aos solventes. Desesperados, não aceitariam a simples verdade de que os odiosos montes de lixo só poderiam não existir se, antes de mais nada, não tivessem sido feitos (por eles mesmos, os leoninos!). Eles se recusariam a aceitar que (como diz a mensagem de Marco Pólo, que os leonianos não ouviriam), “à medida que a cidade se renova a cada dia, ela preserva totalmente a si mesma na sua única forma definitiva: o lixo de ontem empilhado sobre o lixo de anteontem e de todos os dias e anos e décadas”. Os leonianos não ouviriam a mensagem de Marco Pólo porque o que ela lhes diria (quer dizer, se quisessem ouvir) é que, em vez de preservarem o que afirmam amar e desejar, só conseguem tornar permanente o lixo. Só o inútil, o desorientador, repelente, venenoso e temível é resistente o bastante para permanecer ali enquanto o tempo passa.
Seguindo o exemplo doas aglaurianos, os leonianos vivem seu dia a dia, podemos dizer, numa Leônia que “cresce apenas com o nome Leônia”, alegremente inconscientes daquela outra Leônia que cresce sobre o solo. Pelo menos desviam ou fecham os olhos, fazendo o possível para não ver. Assim como no caso dos aglaurianos, a cidade de que falam “tem a maior parte daquilo de que se necessita viver”. O que é mais importante, ela contém a história da paixão pela novidade que eles repetem a cada dia, de modo que essa paixão possa renascer e se reabastecer eternamente, e sua história possa continuar sendo contada, escutada, ouvida com avidez e aceita com fidelidade.
Só um estranho como Marco Pólo poderia perguntar: qual é, afinal, a fonte de subsistência dos leonianos? As coisas modernas e encantadoras, sedutoramente novas e misteriosas, desde que virgens e não experimentadas – ou, em vez disso, os montes de lixo sempre maiores? Como se poderia explicar, por exemplo, sua paixão pela moda? Na verdade, o que é a moda – substituir coisas menos adoráveis por outras mais bonitas, ou a alegria que se sente quando as coisas são jogadas num monte de lixo depois de serem despidas do glamour e do fascínio? As coisas são descartadas por sua feiúra, ou são feias por terem sido destinadas ao lixo?
…
Se essas perguntas fossem feitas a um leoniano, a resposta seria que cada vez mais coisas novas devem ser produzidas para substituir outras, menos atraentes, ou que perderam a utilidade. Mas se você perguntasse a Marco Pólo, viajante estrangeiro, cético, forasteiro não- envolvido, recém-chegado, perplexo, ele responderia que em Leônia as coisas declaradas inúteis e prontamente descartadas porque outros objetos de desejo, novos e aperfeiçoados, acenam, e que elas estão fadadas a serem jogadas fora a fim de que se abra espaço para as coisas mais novas. Ele responderia que, em Leônia, é a novidade de hoje que torna a de ontem obsoleta, destinada ao monte de lixo.
09/04/09